IMAGEM: Mirella

 
 

Se eu tivesse inspiração bastante,
faria um poema para as mães feias,
as mães que vivem entocadas,
exercendo a auto-censura da vergonha.
 
 

Para as mães que queimaram o rosto
quando iam aquecer o leite do filho.
Para as mães desdentadas, pobres, carentes,
de um só braço ou nenhuma perna,
mães coxas, sofridas, rejeitadas,
sem maior atrativo físico,
mães anêmicas de vitaminas e de amor social.
 
 

Eu destinaria meu verso simples
para a mãe prostituta por necessidade.
Pode haver amor maior e mais ilimitado
do que se entregar por algum dinheiro, 
sem direito a ter prazer,
só para dar comida ao seu rebento?
 
 

Porque eu sei que toda mãe é santa,
e não apenas aquelas mulheres cheirosas,
vistosas, abastadas e finas
que freqüentam os comerciais.
 
 

As mães que meu verso cantaria hoje
nunca fizeram cirurgia plástica
e jamais serão encontradas nas revistas
que nos convidam à gastança, ao luxo,
ao culto do corpo, ao faz-de-conta
de que a juventude é eterna.
 
 

Mas seriam mães incomparáveis
- de uma incomparável beleza d’alma.
 
 

Gif: Mirella/2005