Se eu tivesse
inspiração bastante,
faria um
poema para as mães feias,
as mães
que vivem entocadas,
exercendo
a auto-censura da vergonha.
Para as
mães que queimaram o rosto
quando
iam aquecer o leite do filho.
Para as
mães desdentadas, pobres, carentes,
de um só
braço ou nenhuma perna,
mães
coxas, sofridas, rejeitadas,
sem maior
atrativo físico,
mães
anêmicas de vitaminas e de amor social.
Eu destinaria
meu verso simples
para a
mãe prostituta por necessidade.
Pode haver
amor maior e mais ilimitado
do que
se entregar por algum dinheiro,
sem direito
a ter prazer,
só
para dar comida ao seu rebento?
Porque eu
sei que toda mãe é santa,
e não
apenas aquelas mulheres cheirosas,
vistosas,
abastadas e finas
que freqüentam
os comerciais.
As mães
que meu verso cantaria hoje
nunca fizeram
cirurgia plástica
e jamais
serão encontradas nas revistas
que nos
convidam à gastança, ao luxo,
ao culto
do corpo, ao faz-de-conta
de que
a juventude é eterna.
Mas seriam
mães incomparáveis
- de uma
incomparável beleza d’alma.
