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Ultimamente,
ando pensando muito nesse termo tão
comum
em nossa linguagem cotidiana: matar saudades.
A gente não
mata saudades, pelo menos não deveria.
Depois que
fiquei sabendo que existe um pássaro e
uma planta
que também levam esse nome,
aí
então é que fiquei mais receosa de estar sendo
ecologicamente
incorreta.
Saudade é
para ser sentida e curtida como vinagrete.
Para
ser uma saudade verdadeira, ela tem de ser
duradoura
e perene como diria um cantor da década de 30.
Mas, saudade
é isso mesmo, um sentimento brega,
uma canção
nostálgica,
um almanaque
do amigo-da-onça, lembram?
Mas, pensando
bem saudade também pode ter um
gosto
de Pasquim. Que saudades da Leila Diniz !
Eu sinto
saudades de tudo. De odores, lugares,
amigos
de trabalhos anteriores, do gosto do sorvete de pistache,
maçã
do amor, de alguns beijos e até de mim mesma.
Saudade transformada
em imagem é um navio enorme no começo.
E com o
passar do tempo vai se transformando em uma jangada,
mas a gente
nunca deixa de vê-la no horizonte.
Saudade é
insistente como pernilongo em dia de
calor, resiste
ao remédio, às chineladas, ao jornal,
mas
não se deve matá-la não !
A vantagem
de não se matar a saudade,
além
de estar garantindo a preservação da espécie,
é
que a gente sempre pode contar com a companhia dela.
Isso sem
mencionar que quando matamos uma saudade
estamos
matando um pouquinho de nós mesmos e
tudo o mais
que esteja envolvido com a própria.
Por isso
sou adepta da liberdade total para a saudade.
Ela deve
poder exercer seu direito legítimo
de
ir e vir quando quiser e entrar e sair do peito como
os pássaros
migrantes. Acho mesmo que vou instituir
direitos
humanos para a saudade.
Se saudade
tivesse cor, seria azul.
Não
aquele azul chinfrim, desbotado de calça jeans!
Seria azul
como alma de anjo.
Seria aquele
azul da famosa piscina da Gal Costa,
que possuía
uma boca enorme desenhada no fundo.
A saudade
nas crianças pequenas é convertida em lágrima,
choro sentido
mesmo. Elas não desejam matar a saudade,
só
amenizá-la em um colo aconchegante, de preferência
naquele
que pertença ao objeto dessa saudade.
Isso me
faz lembrar das saudades que sentimos
das carícias
de quem amamos.
Dá
para matar essa saudadezinha tão gostosa?
Se saudade
tivesse uma estação própria seria o
Outono ou
a Estação da Luz em São Paulo, antes da reforma.
Mas uma coisa
eu devo admitir,
que a danada
da saudade rouba nossa paz, lá isso rouba !
Parece uma
fome que não passa, uma dor sem lugar fixo,
o outono
dentro dos olhos …
Mas, saudade
não é para ser matada. Saudade é para
ser suavizada,
amenizada, saciada e às vezes embalada.
Hoje carrego
a bandeira da preservação da saudade.
Que seria
dos compositores e poetas sem ela ?
A saudade
deve ser como uma estrela muito brilhante
em
nossas vidas, à noite nos impressiona e quase
sufoca
com seu brilho e de dia desaparece só para
nos deixar
com um pouco de saudades …
Se saudade
fosse música, teria uma boa
representação
na canção do Djavan que diz
“ ... Um
dia frio,
Um bom lugar
prá ler um livro,
E o pensamento
lá em você,
Eu sem você
não vivo … ”
E dá
para viver sem saudades ?
