O encontro
amoroso desperta em nós forças que já eram nossas,
mas que
até então desconhecíamos.
Na relação,
essas forças encontram um território para se afirmar e se
expandir.
O amor
é o processo de construção desse território.
Ele é
uma oportunidade para intensificarmos nossa potência vital.
No fundo,
o amor verdadeiro é o amor pela vida
em sua
riqueza de invenção e transformação.
Por isso
quando ele acontece nos lança numa espécie de estado de graça.
Não,
o amor tem prazo de validade.
Ele vive
enquanto a relação propicia a expansão da vida dos
envolvidos.
Quando
isso deixa de acontecer, e os parceiros têm coragem de se separar
para irem
viver outra vida, não torna aquele amor menos verdadeiro, pelo contrário,
é
só o sinal de que aquele encontro foi real, e vivido até
o fim.
O amor não
é amor pelo casamento, é amor pelo outro.
Se somos
fiéis é porque atribuímos um valor fundamental ao
território
que construímos
juntos. É uma questão de escolha, não de obediência.
Impossível
generalizar.
Às
vezes a traição pode ser o sintoma de que acabou mesmo,
mas outras
vezes pode sinalizar que algo não anda bem e estimular o casal
a enfrentar
as dificuldades e reinventar a relação.
A traição
é nefasta no caso de pessoas "galinhas",
que têm
necessidade de confirmar o ego infinitamente,
vivem traindo
e são incapazes de fazer alianças reais.
Saber o
que fazer, quando se trai ou se é traído, depende de avaliar
o quanto
a traição abre vias para a expansão da vida ou para
sua estagnação.
Para isso
temos que agüentar o sofrimento e escutar o que ele diz,
senão
permaneceremos prisioneiros do medo de perder o outro.
Essa frase
só revela o medo da desestabilização que a paixão
costuma provocar.
Um moralismo
difuso condena a paixão como frívola e irresponsável
e elogia
o amor como maduro e "pé no chão".
Por baixo
disso há uma ideologia que valoriza a estabilidade
e despreza
a força do desejo, e tudo o que ele traz de imprevisibilidade.
Na verdade,
paixão e amor se misturam.
A paixão
só é estéril quando está a serviço do
narcisismo.
É
o caso dos que se apaixonam compulsivamente e precisam se sentir adorados
para combater
a fragilidade de sua auto-estima,
mas nunca
conseguem construir uma relação
- para
esses, o outro é só um instrumento.
Não,
pelo contrário.
Para além
das afinidades, o encontro amoroso é enriquecedor porque o outro
é
diferente de nós, e exatamente por isso nos toca, nos faz desenvolver
dimensões
que não
tínhamos. Por isso cada um precisa preservar sua singularidade,
seus interesses,
seu próprio círculo de amigos, seu trabalho, suas idéias.
A "cara-metade"
e a "alma gêmea" são seres imaginários que nos envenenam,
ficamos
tentando ser igual ao outro e isso empobrece a relação e
evita
as transformações
que o encontro verdadeiro sempre provoca.
Se é
verdade que um grande amor não se esquece
é
porque o outro fica gravado em nosso corpo através das potências
vitais
que ajudou
a despertar. É assim que um antigo amor pode permanecer vivo em
nós.
Mas isso
é muito diferente de ficar grudado na lembrança de alguém.
Se não
esquecermos uma relação morta, a vida vira um velório.
Nos fechamos
para novos encontros e impedimos a criação de novas formas
de viver.
Cuidado:
é o fluxo da vida que se interrompe.
